Uma experiência de cotas

Depois de muito tempo, volto a escrever aqui sobre um tema que se não é o que mais me preocupa no país, está entre os 3 primeiros: a educação.
Entra governo, sai governo, e nada muda: a educação pública e gratuita de ensino médio e fundamental parece estar em queda sem esperanças de melhoras. A realidade do mundo hoje mostra que não existe melhora de IDH sem melhora de educação, mas ainda assim, quando o país se vê numa situação financeira melhor, o dinheiro é gasto em sua maioria com obras e criação de cargos públicos burocráticos, ou seja, nada que vá trazer algum benefício futuro. O governo já desistiu de tentar disfarçar, e agora nem divulga mais as notas de ENEM por escola. É como se negar o problema fosse fazê-lo desaparecer, ou melhor ainda, é uma versão de nível federal da ridícula lei brasileira de "não gerar provas contra si mesmo" - aquela mesma que nos permite negar a fazer o teste do bafômetro em Blitz.

Sei que acesso a educação não necessariamente significa formação de pessoas racionais, mas pela minha pouca experiência pessoal é um fator necessário. Em outra palavras: quem teve boa educação (e isso inclui até os auto-didatas, através de livros) não necessariamente vai ser uma pessoa racional, mas quem é racional necssariamente teve uma boa educação. É importante lembrar também que a educação é um processo, não um período de vida. Não é porque uma pessoa não pode frequentar uma boa escola e não teve boas notas que não possa aprender no futuro de outras maneiras. E é nesse ponto que as cotas se apoiam pra tentar justificar a entrada de pessoas com rendimento pior no exame de admissão.

O Experimento


No meio de 2015 iniciei meu "plano diabólico de dominação mundial" em SC: entrei em um curso de tecnologia (leia-se "tecnólogo"), em um instituto federal. Tinha dois motivos principais: primeiro, seria uma oportunidade de passar um tempo em outro país como estudante caso eu fizesse o programa de intercâmbio, segundo, iria conseguir ter uma idéia de como é o nível do estudante do curso superior público da região na qual gostaria de abrir um negócio próprio, o Vale do Itajaí - assim eu poderia conhecer mais ou menos como são as pessoas que eu um dia, quem sabe, se tudo desse certo, poderia contratar ou ter como sócios.

Tentei conversar com o maior número de pessoas possível, para entender suas motivações e objetivos. Naturalmente não gosto muito de falar com várias pessoas, em especial estranhos, prefiro falar mais vezes com um número menor, mas para ter mais dados fiz esse "sacrifício" que no final acabou sendo bem fácil: no geral, as pessoas da região se mostraram muito simpáticas e fáceis de conviver.

Os aspectos que tentei observar foram: capacidade de aprender algo novo, conhecimentos do ensino médio, dedicação, interesse, facilidade de relacionamento, afinidade cultural. Aproveitei também pra ter impressões sobre o instituto federal, pois eles são normalmente "referência" no ensino de qualidade. O experimento durou 1 semestre, porque acabei saindo do curso para fazer pós-graduação (e isso graças a um professor do instituto, a quem devo muitos agradecimentos). Outro ponto que já me pegou de surpresa no próprio vestibular foi o número reservado para cotas: metade das vagas. Esse numero se distribui entre pessoas que concluiram o ensino médio em escola publica, sendo metade para as que tem renda superior a um valor, e do total 20% vai para negros, índios e pardos.

Observações


Vou começar pelos pontos negativos: falta/impossibilidade de dedicação/preparo e falta de honestidade, de uma minoria de alunos. A pior parte do experimento foi ver alunos que colam nas provas (mas como já deixei claro, são minoria!), e como a fiscalização é praticamente inexistente em uma ou outra matéria. Isso não é exclusividade deste instituto federal, na USP isso também acontecia muito.

Em seguida, vem a falta/impossibilidade de dedicação ou preparo (ou os dois). A realidade de muitos alunos do ensino superior dessa região é de trabalhar durante o dia e estudar a noite, mas isso acaba limitando o desempenho individual: ou a nota dos alunos é muito baixa, ou as provas ficam muito superficiais e o volume de conteúdo coberto muito pequeno. Essa é uma diferença enorme da maioria dos estudantes da USP que "só" estudam. A idéia é bem simples: se o aluno demora 10h para ler e fazer os exercicios de cada parte da matéria, e cada parte da matéria dura uma semana, se ele dedicar 1 hora por semana só vai cobrir aproximadamente um décimo do conteúdo. Então ou a prova vai cobrir só esse décimo e ele tem chance de ir bem, ou a prova vai cobrir tudo e ele vai ir mal na prova (ou então ele cola). O curso superior não tem muito o que fazer pra tentar compensar o péssimo ensino médio e fundamental do sistema público.

Normalmente em instituições famosas os professores deixam o nível das provas nas alturas e os alunos têm que ralar pra conseguir passar. Se não passou de primeira, tenta de novo, e vai tentando até passar (ou desistir). Mas nesse instituto em particular observei o que acontece quando um grupo não vai bem e a entidade dá voz aos estudantes: alguns alunos se uniram pra tentar deixar algumas provas mais fáceis. O que isso pode trazer no longo prazo? Primeiro, a instituição pode perder credibilidade. O diploma é só um papel, o que vale é o que a pessoa aprendeu durante seus estudos, e embora o governo tente de todos os jeitos maquiar dados, mudar formas de cálculo de desempenho pra parecer melhor, não é tão facil enganar o mercado: pessoas mal preparadas vão ter desempenho profissional pior, e essa "fama" se espalha. Segundo, por terem uma percepção do curso pior, menos vestibulandos podem se interessar por ele, alunos bons podem procurar outras entidades (particulares talvez?), e cada vez o curso terá alunos piores, terá que exigir menos em suas provas ou então não vai formar ninguém.

Tirando esses pontos negativos, no geral, os resultados foram excelentes. O nível dos professores surpreendeu de maneira incrivelmente positiva: o método em geral foi ótimo, a disponibilidade deles em tirar dúvidas fora do horário de aula era alta, o domínio de diversos assuntos relacionados a computação também. Um diferencial muito importante é que diversos professores tinham experiência de mercado, então a abordagem do curso não era somente acadêmica. Na minha graduação em engenharia, ficava diversas vezes revoltado com essa barreira que muitos professores tentam levantar entre indústria e universidade. Pra cursos mais científicos eu até entendo, mas engenharia é prática... Essa parte me deixou com boas espectativas quanto ao futuro da região.

O ponto mais controverso foi com relação as cotas. No geral, os alunos que entraram através de cotas tiveram desempenho inferior aos não cotistas, e acho que isso já era esperado. Houveram algumas desistências, mas isso ocorre em qualquer curso, independente de ter cota ou não. O que consegui perceber é que se interpretarmos as cotas pelos resultados , ou seja, número de alunos que vai terminar o curso e que terá de fato a vida impactada pelo diploma, elas são péssimas, e isso acaba tornando questionável o método que o sistema foi implementado no Brasil.

Conclusões


Se por um lado as cotas surtem pouco efeito em cursos técnicos que exigem raciocínio lógico e conhecimento de ciências exatas pois não é possível para a maioria dos alunos correr atrás do ensino fundamental deficiente, por outro, elas abrem uma possibilidade que me parece pouco explorada por estudantes de escola particular: o de ocupação destas vagas que surgem com as desistências através do processo de transferência externa. Antes da existência das cotas, os alunos com melhor nota no vestibular (ou ENEM) eram aprovados, independente de onde estudaram, e o número de desistências era menor.  Agora, existem muito mais vagas por causa das desistências, e nas universidades federais normalmente não existe prova de transferência, somente uma análise de currículo na qual candidatos que tiveram a maior parte da ementa compatível são selecionados. Fica a dica então para você que é aluno de universidade particular e gostaria de economizar uns milhares de reais por ano. ;D



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