A Pergunta Certa


No livro A Startup de $100 o autor enumera algumas perguntas que todo aspirante a empreendedor deve fazer. Muitas delas são óbvias: o que, como e onde vou vender, de que maneira vou receber o pagamento, e por que as pessoas vão pagar pelo que estou vendendo. Todas elas sempre me pareceram óbvias, mas eu ainda sentia faltar algo fundamental pra ter a motivação e incentivo a botar a mão na massa. A pergunta que esse livro me trouxe e que nunca ninguém havia me mostrado e fez toda diferença é: quem você quer servir?

Quando se pensa num negócio como algo impessoal, a primeira resposta que vem a mente é o maior número de pessoas possível. Dinheiro não tem sexo, altura, peso, cultura nem bom humor não é verdade? Pois foi exatamente esse fator que no meu caso travou todo o resto. Eu via o comportamento do paulistano médio nos shoppings, comércios, até nas ruas, e me achava um alienígena naquele meio. Eram essas pessoas que eu ia servir? Como eu teria chances se eu discordava de quase tudo que eles faziam? Vou ter que agir assim pra conseguir fechar negócios?

O experimento


Talvez minha opinião a respeito do paulistano já estivesse enviesada demais pelas minhas experiências de vida na cidade. Quem sabe a realidade fosse outra e as partes com as quais eu tive contato sempre foram infelizes. Vou contar um experimento que eu fiz, nada muito grande, a respeito do comportamento dos meus possíveis "clientes" pelo Brasil.

Pra quem não sabe o que é drop shipping , fica a leitura recomendada pra sua próxima compra no Mercado Livre (não, não tem nada a ver com Starcraft). Pois bem, em 2012 fiz 4 vendas para diferentes regiões do país nesse esquema. Sim, uma amostra infinitesimal pra tirar qualquer tipo de conclusão fundamentada, mas o relacionamento que tive com cada um dos clientes foi marcante. Sempre que uma venda era realizada, eu sugeria ao comprador que me pagasse somente ao receber o produto, por causa do longo tempo de espera e pela possibilidade de o pacote se perder ou ser tarifado (this is Brazil). Um comprador de Pernambuco sempre foi atencioso apesar dos erros gritantes de português até receber o produto. Depois não pagou e nunca mais deu sinal de vida. Um comprador do interior de SP foi muito compreensivo, gente boa, e até acabei conversando com ele por telefone, pois o produto era um presente pro filho dele e ele queria falar sobre a qualidade. Ele fez questão de pagar adiantado por depósito na minha conta bancária. Um comprador de SP capital usou mercado pago, não leu que o produto vinha da China e reclamou com o site mercado livre, que devolveu o dinheiro pra ele. Quando o produto chegou, se negou a devolver. E por último teve a compradora de Santa Catarina, que foi cooperativa, e pagou pelo produto depois de receber, como eu havia sugerido, e depois ainda entrou em contato pra falar o quanto havia gostado.


Por mais que hoje em dia esteja na moda a luta contra os estereótipos, não podemos esquecer porque eles existem. Dizem os sábios que a estatística é a linha de pensamento na qual se uma pessoa tem um frango assado pra comer e outra não tem nada, então na média cada uma tem meio. Porém, a própria estatística dispõe de margens de erros, e ela mesma se declara inútil dependendo do caso. No caso do frango, podemos saber pelo menos quantas pessoas participaram, e que existem frangos distribuidos entre elas. Também sabemos que a média nesse caso é inútil por causa do desvio padrão elevado: 0,5 (50%). Do mesmo modo, o comportamento de diferentes culturas, embora não definam precisamente cada indivíduo, podem ser usadas pra entender o que existe em uma determinada população. Esta é a tênue linha entre preconceito e fato que a ciência consegue traçar.


A confiança


Bons empresários não sobrevivem unicamente de altos lucros, por mais que isso possa causar reação nos combatentes mais ferrenhos do capitalismo. Um fator crucial de sobrevivência para uma empresa, especialmente uma empresa pequena, é o relacionamento com clientes e fornecedores. Pagamentos, datas e quantidades acabam tendo de ser renegociadas por imprevistos, e vivendo num dos países mais burocráticos do mundo, na maioria das vezes é necessário que a solução dos conflitos ocorra sem o acionamento da justiça para facilitar a vida de ambas as partes. Inclusive, a solução óbvia para o paradigma de burocracia exagerada, lentidão nos serviços públicos e leis mal feitas é o mundialmente famoso "jeitinho brasileiro", mas isso é assunto pra outro texto.

Assim sendo, não é nenhuma surpresa que posterioremente eu viria a descobrir que Florianopolis foi a melhor capital brasileira para empreender em 2014. Esse tipo de confiança no próximo, que dia após dia as ruas de São Paulo tiram dos cidadãos punindo quem confia no próximo com crimes não resolvidos e prejuízo, acaba se refletindo na sobrevivência das pequenas e micro empresas, que não possuem recursos financeiros nem políticos para resolver seus imprevistos.

Eu sei que estou fazendo uma suposição enorme aqui, mas determinar a causalidade do melhor resultado de SC com relação ao resto do país pode ser praticamente impossível, dado o número gigante de variáveis, sendo muitas delas subjetivas. No meu caso em especial funcionou assim, acho que na média, me identifico mais com as pessoas de SC do que com as da cidade de SP, e isso gera uma sensação de confiança necessária para se aventurar num negócio próprio ;D Acho que o maior medo depois de achar o seu "lugar próprio", é o medo de um dia ele mudar e ficar igual aos outros nos quais você não se encaixou, mas vamos encerrar o texto antes que se torne "reacionário". =D



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